A música vai muito mais além dos seus efeitos

"Neste mundo binário em que vivemos, onde os antagonismos absolutos parecem realmente existir – como se entre o dia e a noite não houvesse o crepúsculo... ou como se no dia não houvesse sombras e à noite não houvesse as estrelas ou a lua – nesse mundo, pois, ditado pelo "zero e um" dos sistemas digitais, a música resiste como um manifesto de humanidade... mesmo quando é eletrônica. 


Permanece a pergunta: para que estudar música? Por que fazê-lo? Aparentemente para nada... se se considerar nada a própria condição humana. A música tem um fim nela mesma. Sua importância e a importância de seu aprendizado não residem apenas nos efeitos colaterais que ela tem: estimular a concentração, curar gastrite, ajudar a relaxar, ser instrumento de devoção religiosa. A música é muito mais que seus efeitos. 


Ela é um bem e uma condição da humanidade, como a linguagem, ou como a fome e a sede: não há uma única cultura humana que não tenha sua própria música. Como nos mostraram os Clássicos e, depois, a Idade Média e o Século XVII, ela exprime o que a palavra não diz. Música não enche barriga... Mas preenche, ao menos em parte, aquela "falta" que Lacan estudou tanto. Sua ausência nos faz menos humanos. Por isso, os gregos a consideravam como o caminho mais imediato e mais perfeito para o conhecimento do bem e do mal. Por isso, também, é que a música era a base fundamental de sua educação. É de minha opinião que todo mundo (todo mundo mesmo!) Tem o direito de aprender música. 


Mesmo aqueles que não têm a mínima chance de se tornarem profissionais. Se eu puder fazer uma analogia, infeliz, mas válida, na escola, todo mundo estuda Química e Biologia, mas pouca gente se forma médico. Todo mundo estuda Física e Matemática, mas poucos se tornam engenheiros. Todos estudamos Português e fazemos redações, mas muito poucos se tornam escritores. Não que a medicina, a engenharia e o ofício de escritor sejam melhores ou mais importantes do que outros, mas porque são aplicações diretas dessas áreas de conhecimento. No entanto, a Química, a Biologia, a Física, a Matemática e o Português se incorporam aos nossos universos cognitivos... E nos tornamos diferentes do que éramos antes de conhecê-los. O mesmo se dá com a música. 


Assim, toda prática musical pode ter uma dimensão pedagógica e, fazendo música, doamos à humanidade uma possibilidade de crescer, de mudar, de ver-se a si própria, em suas contradições, em suas virtudes e em suas falhas. Comecei a estudar música na Fundação de Educação Artística aos sete anos de idade. E a vida inteira, até entrar para a universidade, tive uma bolsa de estudos... Que a Fundação me deu. Eu trairia minha história se não apoiasse a Fundação!" 

Por Moacyr Laterza Filho

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